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segunda-feira, 30 de abril de 2012

"AQUELE BEIJO" - Resenha final da novela



História de Miguel Falabella terminou como uma das mais insossas e esquecíveis dos últimos tempos

(Felipe Brandão)

Poucas novelas recentes mereceram tanto o estigma de “totalmente esquecíveis” como Aquele Beijo. Em um contexto de concorrência acirradíssima para a televisão em geral, tanto entre as emissoras como em relação a outras mídias, Miguel Falabella ofereceu ao telespectador um enredo banal, morno e desinteressante, sem grandes reviravoltas ou fortes diferenciais que motivassem um público cada vez mais exigente a acompanhá-lo. O resultado: uma média geral de 25 pontos, contra 30 de suas duas antecessoras na faixa, Morde e Assopra e Ti Ti Ti.

Os equívocos começam já no delineamento do eixo central. O conto-de-fadas moderno de Cláudia (Giovanna Antonelli), que, em uma relação duradoura, mas estremecida com Rubinho (Victor Pecoraro), é surpreendida pelo interesse no gentil Vicente (Ricardo Pereira), o qual, por sua vez, ainda não esqueceu a ex-noiva Lucena (Grazzi Massafera), era água-com-açúcar demais para chamar a atenção. Estamos em um período da teledramaturgia a nível internacional em que a ordem é fugir ao óbvio – e, quando não assim, investir mais na agilidade e carregar nos ingredientes do folhetim tradicional, coisa que Aquele Beijo também não fez. Mesmo na elogiada interpretação de Marília Pêra, a antagonista Maruschka Lemos de Sá esteve longe de causar frisson como a Tereza Cristina (Christiane Torloni) de Fina Estampa, por exemplo, ou mesmo como a típica sogra malvada das novelas mexicanas, cuja intenção de homenagear Falabella por vezes alardeou. A própria atriz merecia um papel à altura de sua versatilidade, que lhe permitisse ir além dos “nhé-nhé-nhés” de perua despeitada.

Embora tenham se sobressaído à história principal, as subtramas também careceram de atrativos. Núcleos como o de dona Íntima (Elizângela), moradora da Vila Caiada disposta a tudo para transformar a filha adolescente, Belezinha (Bruna Marquezine), em Miss Brasil, ou do empresário nordestino Felizardo (Diogo Vilela), enganado pela impostora Toinha (Bia Nunnes), que se fazia passar por sua irmã Damiana (Marcélia Cartaxo), tinham maior potencial nas premissas, mas não foram desenvolvidos à altura. É um absurdo, por exemplo, que a revelação de que Toinha não era Damiana só viesse a estourar na última semana, quando poderia ter sido o estopim de ótimos ganchos no decorrer da história. Aquele Beijo careceu de ritmo e de carga dramática durante quase toda sua extensão, melhorando consideravelmente apenas na reta final, depois que Lucena é sequestrada e Vicente fica paraplégico ao tentar salvá-la.

Há que se admitir, contudo, que o texto de Miguel Falabella não foi de todo ruim – ao contrário. O recurso de o autor narrar a trama, na linguagem popular, “não fedeu, nem cheirou”, mas seus diálogos sim se sobressaíram, sempre originais e criativos tanto na comédia como no drama. Percebia-se também um cuidado em manter a coerência do perfil psicológico dos personagens dentro das situações apresentadas, característica nem sempre valorizada nos folhetins. A direção de Cininha de Paula tampouco fez feio, e foi até muito equilibrada. O que só prova, mais uma vez, que a qualidade artística não salva uma novela do fracasso quando falta um forte apelo ao seu lado “industrial”.

O elenco

Aquele Beijo possuiu um elenco equilibrado, mas pouco marcante. Giovanna Antonelli defendeu bem a mocinha Cláudia. Já seus parceiros Victor Pecoraro e Ricardo Pereira foram medianos. Grazzi Massafera, por sua vez, foi quem talvez não tenha animado. Sempre sobrecarregada nas sequências dramáticas de sua Lucena, a atriz pouco ou nada se diferenciou de seu trabalho anterior com Falabella, a sofrida Lívia de Negócio da China (2008), provando que ainda tem muito o que evoluir. Outros atores, como Sheron Menezes (Sarita), Bruna Marquezine, Maria Zilda Bethlem (Olga), Elizângela, Leilah Moreno (Grace Kelly), Fiuk (Agenor), Marina Mota (Amália) e Frederico Reuter (Ricardo), destacaram-se na ala secundária da novela. Menção honrosa ainda para Priscila Marinho, cuja graça e espontaneidade roubaram a cena como a doméstica Taluda, a “Chocotona”.

O ponto mais alto, porém, fica por conta do fenomenal Diogo Vilela, simplesmente impecável na pele do ranzinza Felizardo Barbosa. Felizardo marcou sobretudo pela comicidade, mas teve por seu grande momento uma das sequências mais dramáticas da história:  após descobrir a farsa de Toinha/Damiana, o dono da Shunel tem uma discussão definitiva com a falsa irmã e é acidentalmente esfaqueado por ela, morrendo nos braços do filho Agenor. Um final e tanto para o melhor personagem da Vila Caiada.

Aquele Beijo parte sem deixar saudades. Uma trama que não foi além das mínimas expectativas e caiu na completa imperceptibilidade, enquanto outros folhetins, da Globo e de outros canais, cresciam a olhos vistos perante a audiência e a crítica. Que Miguel Falabella possa, no futuro, investir seu talento em histórias melhores.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

"MISS XV" - Panorama inicial do novo produto latino da Nick





Nova versão da inesquecível Quinceañera promete
conquistar os telespectadores do canal infantil

(Felipe Brandão)

A nova produção de Pedro Damián estreou com o pé direito na Nickelodeon castelhana, no último dia 16 (segunda-feira). Leve, divertida e bem-produzida, Miss XV se sobressai tanto pela adaptação digna da história original – o clássico mexicano Quinceañera (1987), de Carla Estrada – quanto por se diferenciar da dramaturgia de gosto duvidoso que a Nickelodeon vem fazendo na América Latina.

O enredo gira em torno de duas amigas inseparáveis, Valentina Contreras (Paulina Goto, Niña de mi Corazón) e Natalia D’Acosta (Natasha Dupeyrón, Poucas, Poucas Pulgas), às vésperas de completarem seus quinze anos. Valentina tem de driblar a mãe dominadora, Catarina (Raquel Garza, A Feia Mais Bela) e o indesejável pretendente Alexis (Eleázar Gómez, Atrévete a Soñar) para concretizar seu amor por Nico (Yago Muñoz, Verano de Amor), músico jovem e sensível. A romântica Natalia, por sua vez, é uma pobre menina rica que sofre com o descaso dos pais, Marina (Gabriela Platas) e Sebastián (Ignacio Cassano), mas encontrará consolo nos braços do complicado Eddy (Jack Duarte, Rebelde), irmão mais velho de Valentina.

O grande acerto de Miss XV está em transpor com maestria o original de Jorge Durán Chávez ao contexto atual e às necessidades de um novo público. E o mais impressionante: sem enveredar pelo humor debiloide de produções como Isa TKM (2008) e Grachi (2011). Os primeiros capítulos transcorreram entre conflitos dramáticos leves, humor bem dosado e um certo romantismo. Pode não parecer muito, mas em se tratando da Nick sem dúvida é um avanço considerável.

As suavizações do original são notórias. Quinceañera foi uma trama forte e até escandalosa para os anos 80, onde a protagonista, Maricruz (Adela Noriega), acreditava-se vítima de um estupro e sua melhor amiga, Beatriz (Thalía), enfrentava uma gravidez precoce. Aparentemente tanto a violência sexual como a gravidez de Natalia e o envolvimento com drogas de Eddy, tal qual o de Gerardo (Rafael Rojas) em 1987, estão descartados para esta nova versão. Nisso consiste o seu encanto: fazer-se uma história nova e dirigida a um público mais ingênuo sem desmerecer as versões anteriores – houve um primeiro remake, Primeiro Amor... A Mil por Hora (2000), produzido pelo mesmo Pedro Damián e já exibido no Brasil em 2003.

A cenografia também chama a atenção. Ambientes como o colégio, a casa de Natalia e a sala dos Contreras são mais bem trabalhados do que em muitas produções estelares da Televisa, o que denota um investimento especial da rede mexicana e de suas parceiras no projeto, a Nick e a colombiana RCN. A trilha sonora é outro acerto, conferindo um frescor a mais ao programa. Paulina Goto e Natasha Dupeyrón estão ótimas como as debutantes Valentina e Natalia. Mesmo já na faixa dos 20 anos, ambas atrizes convencem perfeitamente na pele de adolescentes. Yago Muñoz, Jack Duarte e Eleázar Gómez tampouco se saem mal vivendo os galãs, e atores como Gabriela Platas, Raquel Garza e Reynaldo Rossano (Quirino, pai de Valentina) já se destacam no elenco adulto. Vale comentar ainda a sempre carismática Beatriz Moreno, que revive em Miss XV o mesmo papel de Primeiro Amor... A Mil por Hora: o de babá de Marina (Ana Layevska) / Natalia.

Miss XV tem tudo para se destacar na TV a cabo e nas vendas internacionais da Televisa. A novela tem previsão de ser exibida dublada pela Nick brasileira no próximo semestre. Até lá, os mais ansiosos podem conferir na Internet estes e os próximos capítulos da história de Valentina e sua turma.

terça-feira, 24 de abril de 2012

"CHEIAS DE CHARME" - Olhar inicial sobre a nova novela da Globo

Substituta de Aquele Beijo aparenta ser promissora, mas precisa se livrar de alguns tropeços


(Felipe Brandão)


Cheias de Charme vem com uma proposta cheia de potencial. Estreada na semana passada, em substituição à insossa Aquele Beijo, a trama de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira prima pela criatividade em um pano-de-fundo antenadíssimo, mas escorrega em algumas falhas que fazem a diferença no resultado final.

O enredo gira em torno de três jovens empregadas domésticas, Maria da Penha (Taís Araújo), Maria do Rosário (Leandra Leal) e Maria Aparecida (Isabelle Drummond). Dividindo entre si as anedotas da profissão e o desejo de uma vida melhor, o trio de heroínas se unirá para formar o conjunto musical As Empreguetes, que fará muito sucesso e ameaçará a hegemonia do vaidoso Fabian (Ricardo Tozzi), ídolo de Rosário, e da mal-intencionada Chayenne (Cláudia Abreu), outrora considerada a rainha do eletroforró, mas com a popularidade em franca decadência.

O apelo musical é uma tendência crescente no mercado internacional de telenovelas, e não é de estranhar que a Globo finalmente tenha se interessado pelo gênero. Cheias de Charme não apenas faz jus a essa necessidade, como ainda busca uma maior penetração junto à classe C, possivelmente a mais representativa de nossa sociedade e com quem o canal carioca vinha perdendo espaço para a concorrência. O perfil das três heroínas e a escolha pela música sertaneja e o tecnobrega evidenciam essa tentativa de popularização, além de dar um ar mais “brasileiro” à novela, fator que a Globo sempre parece considerar em sua dramaturgia.

O primeiro capítulo foi muito bem-feito. Deixou de lado as apresentações didáticas de personagens e imediatamente “lançou” a todos em situações dinâmicas e divertidas, que mal deram tempo para o público respirar. A partir de terça-feira (dia 17), porém, alguns problemas começaram a aparecer. Primeiramente, o fato de as questões domésticas e judiciais das personagens centralizarem a ação. A maior parte dos capítulos girou em torno da contratação/demissão de Penha, de Rosário e de Socorro (Titina Medeiros) como arrumadeiras ou de seus problemas com Lygia (Malu Galli), Máslova (Aracy Balabanian) e Chayenne, suas patroas. Entende-se que a intenção da novela é abordar esse cotidiano, mas fazer dele seu eixo ao invés de seu pano-de-fundo é empobrecer drasticamente o enredo. Até uma boa dose de folhetim clássico, embora não soe nada ousado, teria sido uma alternativa melhor.

A edição ágil acima da média foi uma faca de dois gumes. A variedade de acontecimentos em cada capítulo foi grande, o que já seria um acerto, se fosse algumas cenas terem ficado confusas e alguns ganchos caírem na superficialidade. É o caso do momento em que Inácio e Rosário são assaltados no buffet e ficam presos na câmara de refrigeração – bom contexto pra um capítulo inteiro, mas que não durou 10 minutos.

Outro problema se nota na dissonância entre os núcleos. A trama de Lygia, personificação da mulher multitarefas do século XXI, em conflito com as obrigações profissionais e o lado humano da profissão de advogada, simplesmente não parecer combinar com o tom de conto-de-fadas das tramas de Rosário e de Cida, por exemplo. Por fim, temos a famigerada estética kitsch. O excesso de colorido em cenários como os de Chayenne são de fazer inveja a muita novela mexicana ou do Miguel Falabella. Sabe-se que é intencional, mas o fracasso de tramas como As Filhas da Mãe (2001), Negócio da China (2008), Tempos Modernos (2010) e a própria Aquele Beijo, todas adeptas dessa linguagem, prova que não é todo o público que a vê com bons olhos. Por que então insistir?

Cheias de Charme foi concebida com todos os ingredientes para ser uma novela e tanto. A receita está para um sucesso; vai depender dos autores aproveitarem esse potencial ou insistir nos tropeços do início.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Balanco da primeira semana de "MASCARAS", nova trama da Record

Paloma Duarte contracena com Giselle Itié em Máscaras:
protagonista misteriosa e literalmente anônima

(Felipe Brandão)


Depois de um episódio de estreia totalmente “aberto”, a trama central de Máscaras se desenhou de forma mais concreta nos capítulos que se seguiram. Outros personagens e núcleos foram apresentados, suspeitas se levantaram em torno dos enigmas lançados, conferindo mais dinamismo e clareza ao novo trabalho de Lauro César Muniz. Um dos momentos-chave foi a primeira aparição da curiosa personagem Nameless (Paloma Duarte), protagonista feminina da história e, diga-se de passagem, nada associável ao protótipo da heroína romântica. A começar pelo fato de não ter sequer um nome.

O mistério em torno do rapto do filho de Maria (Miriam Freeland) e Otávio Benaro (Fernando Pavão) foi o grande motor desta primeira semana. Todos são suspeitos, todos desconfiam de todos, e a solução se revela mais instigante à medida que se mostra longe de aparecer. Os atores envolvidos desempenham à altura, com destaque especial para Valquíria Ribeiro, profundamente verdadeira nas cenas dramatiquíssimas de Maria do Socorro, e para Raymundo de Souza, ator fabuloso que infelizmente não é valorizado à altura na TV. Fernando Pavão não está ruim como o fazendeiro Otávio; seu tom é acertado, porém carece de mais expressividade.

Além disso, é forçosa uma crítica direta ao próprio texto de Muniz. As suspeitas e troca de acusações entre Otávio, Décio (Petrônio Gontijo), Martim (Heitor Martinez), etc. pela autoria do sequestro foram repetidas à exaustão diante do público, chegando a estagnar o desenvolvimento da ação em certo período. Além de cansativo, totalmente desnecessário, qualquer espectador já havia entendido que todos os personagens são “mascarados” em potencial, nem culpados nem inocentes até que se prove o contrário.

Outro problema foi a falta de objetividade na apresentação dos enredos secundários. Houve muitas cenas criativas e bem-roteirizadas, como o jantar em que Valéria (Bete Coelho) e o deputado Gomide (Henri Pagnocelli), ao comemorarem o aniversário de casamento, anunciam que vão se divorciar – incrivelmente inusitado. Entretanto, a maior parte dos demais personagens ainda não teve sua função dramática enunciada claramente perante o público. É o caso de Laís (Luíza Curvo), Marina (Gabriela Durlo), Gabriel (Márcio Kieling) e Geraldine (Luíza Thomé). A única subtrama já delineada foi o interessante triângulo amoroso entre Luma (Karen Junqueira), Guto (Daniel Aguiar) e Flávia (Francisca Queiroz). Aliás, cabe uma retratação desta coluna quanto à avaliação de Daniela Galli no primeiro episódio. A atriz está perfeita no tom seco que imprime à psicóloga Tônia Valdez.

Embora pudesse ter sido melhor, Máscaras teve um começo definitivamente promissor. A novela tem tudo para intrigar e surpreender o público, tal como fez a excelente Poder Paralelo, do mesmo autor, no ano retrasado. Vejamos o que vem por aí.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

"MASCARAS" (Rede Record) - Um olhar sobre a estreia



Tom nebuloso predominou na estreia do folhetim e é o seu grande atrativo


(Felipe Brandão)

Exibida no fim da noite de ontem (terça-feira, dia 10) na Rede Record, a estreia de Máscaras se sobressaiu pelo inusitado. Foi com situações misteriosas, que a princípio soaram vagas e quase absurdas, mas aos poucos se desvelam mais ou menos claramente diante do público, que se iniciou a nova trama do consagrado Lauro César Muniz. Não se trata apenas de mais um thriller detetivesco; o autor deixa claro, já no primeiro episódio, sua intenção de “jogar” livremente com as aparências e as verdades, confundir o público e levar os enigmas que começam a se desenhar a um patamar totalmente imprevisível.

A apresentação das tramas e dos personagens aconteceu de forma menos ordenada do que de costume, o que fez a diferença em um resultado final positivo e diferenciado. A depressão pós-parto de Maria (Miriam Freeland) e o acidente com o filho recém-nascido, a relação entre as irmãs Tônia (Daniela Galli) e Luma Valdez (Karen Junqueira), o sequestro dos bebês na fazenda, tudo foi colocado no roteiro sem muita preocupação com a sequência narrativa tradicional, mas sem perder o interesse – ao contrário, acentuando-o. Cada cena deixava no ar a questão: até que ponto as coisas são o que parecem? o que verdadeiramente está por trás das situações mostradas?

A novidade em técnicas narrativas não atrapalhou o lado tradicional que na medida do possível toda novela deve preservar. Evitando a verborragia, Máscaras conteve a devida agilidade e apelo emocional, com destaque para a sequência de ação espetacularmente produzida em que o filho de Otávio (Fernando Pavão) e Maria é raptado por bandidos, junto à babá Maria do Socorro (Valquíria Ribeiro). O único erro foi ter se focado em tão poucos personagens. Toda a ação do episódio se dividiu em apenas dois núcleos, o principal e o das irmãs Valdez, o que acabou passando um certo ar de claustrofobia. Espera-se que essa impressão se dissipe ainda no decorrer da primeira semana.

Não há muito o que se dizer do elenco, mesmo porque a maior parte deste ainda é incógnita. Miriam Freeland foi o maior, ou o único, destaque. Apesar da retórica estranha em alguns dos primeiros diálogos, a atriz arrasou nas cenas de Maria na fazenda, brilhando à medida que a loucura da personagem chegava a níveis mais histéricos. Fernando Pavão (foto), por sua vez, não anima na pele do protagonista Otávio, mesmo acumulando diversas cenas fortes. Daniela Galli foi outra que poderia ter se sobressaído mais em cena.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"A VIDA DA GENTE" - Balanço final da novela da Rede Globo



Trama de Lícia Manzo foi marcada pela inovação bem-vinda e por atuações marcantes


Marjorie Estiano e Fernanda Vasconcellos:
dobradinha afiada como as irmãs Manuela e Ana

(Felipe Brandão)


A Vida da Gente encerrou sua passagem pela grade da TV Globo há poucas semanas, acumulando mais méritos do que falhas. Ousou não apenas ao adotar um estilo oposto ao de sua antecessora, a onírica e bem-sucedida Cordel Encantado, mas também ao levar a humanização dos personagens de folhetim a um patamar nunca antes visto. Em sua estreia como autora titular, Lícia Manzo conferiu verossimilhança a um enredo que tinha tudo para ser banal e até mexicanizado, respaldada pela excelente direção de Jayme Monjardim.

Os atrativos da história ficaram claros já nos capítulos iniciais. A Vida da Gente teve um daqueles inícios raros, cuja empatia com o espectador é tão forte e imediata que nem lhe permite o “luto” pela trama anterior. Parte disso graças ao drama intenso, realista e comovente da adolescente Ana (Fernanda Vasconcellos), ao lutar contra a mãe ambiciosa, Eva, e a treinadora implacável, Vitória – as excelentes Ana Beatriz Nogueira e Gisele Fróes – pelo direito de prosseguir com uma gravidez precoce no auge da carreira esportiva. Um encaixe perfeito entre folhetim clássico e aproximação da realidade. Tramas paralelas, como a busca de Alice (uma segura Sthefany Brito) por sua família biológica, foram bem enunciadas e casadas ao contexto central, conformando uma primeira fase marcante e emocionante.

Após o acidente de carro com Ana e Manuela (Marjorie Estiano), que deixaria aquela em coma por alguns anos, o desenrolar da história fica um pouco maçante, tendo por maior falha o centralizar-se no amadurecimento forçado de Rodrigo e Manuela ao se encarregarem de Júlia (Jesuela Moro), filha dele com Ana, do que em uma aproximação amorosa emotiva e convincente entre o novo casal. Isso aconteceu um tanto às pressas diante do público, fazendo com que o romance de Rodrigo com Manuela soasse mais racional do que sua relação com Ana, onde havia mais “paixão”.

O despertar do coma da protagonista, porém, veio colocar o enredo novamente nos eixos. A partir daí A Vida da Gente tornou-se a trama vanguardista e complexa que seria até o fim de sua exibição. Antes romântica, frágil e submissa, Ana agora se transforma em uma mulher madura e disposta a retomar sua vida, passando por cima primeiro das manipulações e chantagens emocionais de Eva, a que antes se sujeitava, e depois dos sentimentos e da fidelidade à própria irmã, Manuela – que, por sua vez, também não era nenhuma megera. O público, perdido, não sabia ao certo para quem torcer e se dividia entre as razões e sem-razões das duas “heroínas tortas”.

Nisso residiu o principal mérito de A Vida da Gente: em testar uma linguagem diferente perante o público tradicional das telenovelas. Na descrição da publicitária Priscila Martz: “A leveza com que os assuntos foram abordados, a linguagem que fugiu aos padrões da TV brasileira, se aproximando inclusive do cinema foram os grandes diferenciais. Sem falar na direção de fotografia e os diálogos um tanto quanto poéticos”.

Bons atores em grandes personagens

As jovens promessas Marjorie Estiano e Fernanda Vasconcellos estiveram impecáveis nos conflitos e nuances fantásticas de Manuela e de Ana. Thiago Lacerda foi outro que esteve sob medida no papel do médico Lúcio, enquanto Rafael Cardoso tampouco decepcionou como Rodrigo. “Manuela e Lúcio pareciam representar pessoas mais racionais e adultas, contrastando com os impulsos ingênuos da Ana e, algumas vezes, do Rodrigo. As falas e reações deles sempre reforçavam essa dissonância entre razão e emoção”, observa a jornalista Renata Ribeiro, espectadora assídua da trama.

Leona Cavalli (Celina), Stênio Garcia (Laudelino), Regiane Alves (Cris) e Paulo Betti (Jonas) estiveram entre os mais afiados do elenco secundário, que ainda acumula menção honrosa para Nicette Bruno, cuja Iná foi peça-chave no desenvolvimento dos núcleos centrais; e para Maria Eduarda, a qual, após alguns papéis discretos na TV, roubou a cena como a despachada Nanda Macedo. Pena que seu principal parceiro de cena, o adolescente Vítor Navega Motta (Francisco), fosse tão ruim. Destaque ainda para o brilho do elenco infantil: Jesuela Moro, Kaic Crescente (Thiago), Anna Rita Cerqueira (Olívia) e Pietra Pan (Bárbara).

Um dos poucos pecados de A Vida da Gente foi o desperdício de bons atores em papéis ínfimos. Daniela Escobar e Marcelo Airoldi, como os pais de Alice, passaram boa parte da história apagados e restringindo-se aos conflitos da jovem, só vindo a ter um maior destaque perto da reta final, com a crise conjugal de Cícero e Suzana. As ótimas Neuza Borges, Malu Valle e Cláudia Mello também poderiam ter sido mais exploradas.

O relacionamento familiar por pano-de-fundo

Ritmo é quase tudo em uma novela, e nesse quesito A Vida da Gente tampouco fez feio. “Algumas novelas tratam conflitos familiares superficialmente ou até com a mesma abordagem. Mas a autora fez com que os personagens realmente existissem dentro da trama, com todo o seu histórico bem construído e desenvolvido. A Vida da Gente deu espaço para todos os personagens, cada um ao seu tempo”, avalia Priscila Martz.

A psicóloga Laldeci de Almeida Mattei (CRP 08/10152), especialista em Saúde Mental, vê os arranjos familiares descritos por Lícia Manzo como passíveis de acontecerem na vida real e contemporânea. Ela aprova, especialmente, o modo como Rodrigo, Ana e Manuela se portaram diante de Júlia em meio aos próprios conflitos sentimentais. “Todas as ações sempre foram dialogadas com a verdade para Júlia. Os fatos ocorridos entre os adultos eram ‘coisas de adultos’, e era sempre destacado o amor incondicional que todos tinham por ela”. A visão da psicóloga clínica Roberta Romanholi (CRP 08/1710) já é um pouco divergente. Ela chama atenção para um momento específico da trama, em que Júlia afirmou considerar Lúcio como seu segundo pai. O médico era namorado de Ana, sua mãe biológica, mas a relação do casal foi cheia de idas e vindas. “Percebo uma grande confusão no ideal que Júlia fazia de pai e mãe. Isso tende a influenciar negativamente o desenvolvimento humano da criança”, afirma Roberta.

O desfecho da história mereceu aplausos pela eficácia e coerência com seu desenvolvimento. Foi perfeitamente compreensível que, ao final de tantos desencontros, Rodrigo escolhesse Manuela, e Ana por conseguinte voltasse para Lúcio. Entretanto, as cenas que fecharam os pares foram por demais superficiais. O público que os acompanhou, sofreu e torceu por eles merecia ao menos um momento mais romântico que selasse as reconciliações como manda o figurino. Também faltou um foco maior na relação entre Vitória e Alice, a filha natural que ela rejeitara – as duas apenas tiveram alguns encontros, desastrosos, na primeira fase. O que só prova que a curta duração – apenas quatro meses no ar – não fez jus ao volume de história que A Vida da Gente parecia ter para contar.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Crítica de Cinema: A Invencao de Hugo Cabret



(Thiago Fetter)

Falaremos hoje do Filme A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, Estados Unidos, 2012), que está em cartaz nos cinemas e abocanhou cinco estatuetas técnicas na última cerimônia do Oscar.
Primeiramente, apenas por ser produzido e dirigido por Martin Scorsese (Taxi Driver, Os Bons Companheiros) já vale a pena ser conferido – mas em 3D. Só que o filme, como veremos, vai muito além disso.
Já na cena inicial o espectador, literalmente dentro da estação de trem da Paris dos anos 30, percebe toda a qualidade da fotografia e dos efeitos tridimensionais que terá pela frente. Não é exagero afirmar que são de fazer inveja a Avatar (vale ressaltar que foi utilizada a mesma tecnologia. O talento de Scorsese, porém, faz a diferença).
Embora as cenas iniciais tenham uma certa “cara” de aventura infantil, inclusive com trilha sonora à la Disney, o enredo vai se construindo e ganhando corpo, ao mesmo tempo em que o roteiro (e com ele a trama, os personagens e a beleza visual) se transforma em uma verdadeira apologia atemporal à História do Cinema, com referências a clássicos de todas as épocas – até os fãs de De Volta Para o Futuro se sentirão homenageados.
Assim, com o crescimento do enredo, temos a impressão de ver dois filmes que se fundem em um: ao mesmo tempo em que o público mais jovem se vê envolto em uma aventura infantil de boa qualidade, o público adulto é presenteado com uma grande homenagem metalingüística à Sétima Arte. E essa homenagem vem recheada de cenas visualmente belíssimas e carregadas de sentimento, retomando os primórdios da invenção do cinema e das primeiras experiências cinematográficas. É indescritível a emoção de ver na telona a pureza de cenas de películas dos primeiros anos do século passado sendo construídas, e depois vê-las projetadas, em uma bela e fina ironia, em três dimensões, na mais moderna tecnologia cinematográfica hoje disponível.
Por tudo isso, os Oscars de Direção de Arte e Fotografia foram mais do que merecidos. O “clima” criado e a beleza visual são formidáveis, encantadores mesmo, e por si só já valeriam o ingresso. Mas Hugo vai ainda além.
Scorsese mostra uma direção vigorosa e precisa. Como é de seu feitio, a câmera se move incessantemente durante as tomadas, ora buscando planos-seqüência interessantes, ora “perseguindo” os atores em movimento, ora simplesmente fazendo determinado personagem crescer inacreditavelmente em três dimensões aos olhos do espectador. Não seria injusto se Scorsese tivesse sido premiado com a Estatueta de Melhor Direção – assim como também não foi injusta a vitória do Michel Hazanavicius, de O Artista.
As atuações não são soberbas, mas convencem. O ator-mirim Asa Butterfield (O Menino do Pijama Listrado) convence no papel-título, Ben Kingsley (A Ilha do Medo) não compromete como o sisudo comerciante e Sacha Baron Cohen (Borat) dá um acréscimo de irreverência britânica às performances. Jude Law (A.I. - Inteligência Artificial) passa despercebido, até porque seu papel é pequeno, e a melhor atuação, na humilde opinião deste colunista, é a de Helen McCrory (O Conde de Monte Cristo), que emociona com sua sensibilidade e humanismo no papel da Mama Jeanne.
Infelizmente, o ponto fraco fica pelos previsíveis clichês de algumas cenas, que todavia acredito terem sido necessários para garantir o sucesso junto ao pouco exigente público norte-americano. Mas isso parece pouco para tirar o encanto e a beleza desse filme espetacular.
Para finalizar, volto a enaltecer o roteiro (adaptado do livro homônimo), que cria a história a partir de fatos reais e acabou por perder o Oscar para o insosso e americanóide Os Descendentes, em outra dessas (em minha opinião) injustiças que a Academia comete de tempos em tempos. O enredo ainda namora por vezes com tópicos que fazem refletir (“se o mundo é uma máquina, e nenhuma máquina tem peças sobrando, então nenhum de nós está aqui por acaso”), enquanto analisa contrapontos e similaridades entre máquinas e seres humanos, usando para tanto a arte, o cinema, a História e os sentimentos que ligam as pessoas a tudo isso.
Recomendo fortemente, para adultos de todas as idades e para crianças dos 5 aos 90 anos – mas sempre em 3D. Quem não assitiu a Hugo em 3D, não assitiu a Hugo, lembre disso.

Thiago Fetter.
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