segunda-feira, 30 de abril de 2012
"AQUELE BEIJO" - Resenha final da novela
História de Miguel Falabella terminou como uma das mais insossas e esquecíveis dos últimos tempos
(Felipe Brandão)
Poucas novelas recentes mereceram tanto o estigma de “totalmente esquecíveis” como Aquele Beijo. Em um contexto de concorrência acirradíssima para a televisão em geral, tanto entre as emissoras como em relação a outras mídias, Miguel Falabella ofereceu ao telespectador um enredo banal, morno e desinteressante, sem grandes reviravoltas ou fortes diferenciais que motivassem um público cada vez mais exigente a acompanhá-lo. O resultado: uma média geral de 25 pontos, contra 30 de suas duas antecessoras na faixa, Morde e Assopra e Ti Ti Ti.
Os equívocos começam já no delineamento do eixo central. O conto-de-fadas moderno de Cláudia (Giovanna Antonelli), que, em uma relação duradoura, mas estremecida com Rubinho (Victor Pecoraro), é surpreendida pelo interesse no gentil Vicente (Ricardo Pereira), o qual, por sua vez, ainda não esqueceu a ex-noiva Lucena (Grazzi Massafera), era água-com-açúcar demais para chamar a atenção. Estamos em um período da teledramaturgia a nível internacional em que a ordem é fugir ao óbvio – e, quando não assim, investir mais na agilidade e carregar nos ingredientes do folhetim tradicional, coisa que Aquele Beijo também não fez. Mesmo na elogiada interpretação de Marília Pêra, a antagonista Maruschka Lemos de Sá esteve longe de causar frisson como a Tereza Cristina (Christiane Torloni) de Fina Estampa, por exemplo, ou mesmo como a típica sogra malvada das novelas mexicanas, cuja intenção de homenagear Falabella por vezes alardeou. A própria atriz merecia um papel à altura de sua versatilidade, que lhe permitisse ir além dos “nhé-nhé-nhés” de perua despeitada.
Embora tenham se sobressaído à história principal, as subtramas também careceram de atrativos. Núcleos como o de dona Íntima (Elizângela), moradora da Vila Caiada disposta a tudo para transformar a filha adolescente, Belezinha (Bruna Marquezine), em Miss Brasil, ou do empresário nordestino Felizardo (Diogo Vilela), enganado pela impostora Toinha (Bia Nunnes), que se fazia passar por sua irmã Damiana (Marcélia Cartaxo), tinham maior potencial nas premissas, mas não foram desenvolvidos à altura. É um absurdo, por exemplo, que a revelação de que Toinha não era Damiana só viesse a estourar na última semana, quando poderia ter sido o estopim de ótimos ganchos no decorrer da história. Aquele Beijo careceu de ritmo e de carga dramática durante quase toda sua extensão, melhorando consideravelmente apenas na reta final, depois que Lucena é sequestrada e Vicente fica paraplégico ao tentar salvá-la.
Há que se admitir, contudo, que o texto de Miguel Falabella não foi de todo ruim – ao contrário. O recurso de o autor narrar a trama, na linguagem popular, “não fedeu, nem cheirou”, mas seus diálogos sim se sobressaíram, sempre originais e criativos tanto na comédia como no drama. Percebia-se também um cuidado em manter a coerência do perfil psicológico dos personagens dentro das situações apresentadas, característica nem sempre valorizada nos folhetins. A direção de Cininha de Paula tampouco fez feio, e foi até muito equilibrada. O que só prova, mais uma vez, que a qualidade artística não salva uma novela do fracasso quando falta um forte apelo ao seu lado “industrial”.
O elenco
Aquele Beijo possuiu um elenco equilibrado, mas pouco marcante. Giovanna Antonelli defendeu bem a mocinha Cláudia. Já seus parceiros Victor Pecoraro e Ricardo Pereira foram medianos. Grazzi Massafera, por sua vez, foi quem talvez não tenha animado. Sempre sobrecarregada nas sequências dramáticas de sua Lucena, a atriz pouco ou nada se diferenciou de seu trabalho anterior com Falabella, a sofrida Lívia de Negócio da China (2008), provando que ainda tem muito o que evoluir. Outros atores, como Sheron Menezes (Sarita), Bruna Marquezine, Maria Zilda Bethlem (Olga), Elizângela, Leilah Moreno (Grace Kelly), Fiuk (Agenor), Marina Mota (Amália) e Frederico Reuter (Ricardo), destacaram-se na ala secundária da novela. Menção honrosa ainda para Priscila Marinho, cuja graça e espontaneidade roubaram a cena como a doméstica Taluda, a “Chocotona”.
O ponto mais alto, porém, fica por conta do fenomenal Diogo Vilela, simplesmente impecável na pele do ranzinza Felizardo Barbosa. Felizardo marcou sobretudo pela comicidade, mas teve por seu grande momento uma das sequências mais dramáticas da história: após descobrir a farsa de Toinha/Damiana, o dono da Shunel tem uma discussão definitiva com a falsa irmã e é acidentalmente esfaqueado por ela, morrendo nos braços do filho Agenor. Um final e tanto para o melhor personagem da Vila Caiada.
Aquele Beijo parte sem deixar saudades. Uma trama que não foi além das mínimas expectativas e caiu na completa imperceptibilidade, enquanto outros folhetins, da Globo e de outros canais, cresciam a olhos vistos perante a audiência e a crítica. Que Miguel Falabella possa, no futuro, investir seu talento em histórias melhores.









